quinta-feira, 3 de maio de 2012

Paris, 28 de outubro de 1927.

Querido Sr. Gentil,

Desculpe pelo espelho do quarto. Levei comigo pra que eu não me esqueça de mim. Confesso que sai em silêncio, porque minhas palavras podiam gritar. Eu te amei por um dia, ou dois, talvez mais. Fomos felizes até. Só que sou desorientada e não consegui enxergar nosso amor. Preciso de óculos. Mandei fazer, fui buscar, e fui embora. Nessa ordem. Agora tenho óculos e não tenho você. Parece justo. Eu fui injusta com você e quero no fundo me castigar. Ou me libertar? Talvez o certo desse caso errado seja eu fugir pra longe, pra onde as pessoas são tão problemáticas como eu a ponto de precisar de um par de lentes para enxergar coisas próximas e nítidas. Agora não temos um ao outro, e acho que nunca tivemos. Cansei do meu próprio emaranhado de contradições. Perdoe-me por te afogar no meu maldito ego guloso. Você precisa de ar. Precisa ir pra superfície e remar (e re-amar) sem mim. Sua solidão será o pouco que eu nunca pude te dar. Obrigada por tentar aquecer nossa casa úmida, por ser impecável e tão gracioso. Você merece se casar com a Madame Sofie que tanto te quer. Prometo não colocar fogo na festa nem ir disfarçada de homem. Vou vestida de mim mesma, se você me convidar. Vou te dar de presente um abraço, e vou gostar de você de novo, no instante infinito que durar esse abraço. Depois eu volto pra estação de trem. Vou fugir mais uma vez. Anseio saciar minha fome de amor, fazendo jejum de você.
                                                                                                              Com amor,
                                                                                                                         Norma Jean.

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